Uma História do Juba

"Ei, você tem discos em casa?", falei, interessado. "É, tenho alguns", me respondeu aquele sujeito com cara de John Lennon. Foi assim, bem ao seu estilo, que começou uma forte amizade entre Juliano, o "Juba" e eu.

Já nos conhecíamos de vista no Banco do Brasil onde trabalhávamos como Menor Auxiliar de Serviços Gerais. Éramos uma espécie de "boys" internos. Na época em que entramos para o banco, julho de 1985, estavam trabalhando no prédio central na praça tiradentes mais de 50 menores. Pegamos uma das últimas fases da época de ouro dos menores no banco.

Os "alguns discos" que o juba disse que tinha eram mais de 100. Isso no ano de 1987 era uma verdadeira coleção, e ainda mais para um cara de 16 anos. Tinha de tudo, Rita Lee, Deep Purple, Blues, Jazz e é claro, Led Zeppelin!

Eu comecei a me interessar para valer por música quando no carnaval de 1986 fui para Caxias do Sul. Nesta época eu morava junto com o Chico, filho de um colega de Banco de minha mãe. Em Caxias do Sul fomos visitar seus parentes e conheci sua prima, Alessandra. Menina muito gente boa que acabei namorando por alguns meses. Foi lá que despertei para o Pink Floyd e companhia.

Quando voltei para Curitiba, uma das primeiras coisas que fiz foi comprar o "disco das camas" (A Momentary Lapse of Reason) do Pink Floyd e também o XXX do Legião Urbana, por causa da música Faroeste Caboclo.

Quando fiz aquela fatídica pergunta para o Juba, já foi meio que na certeza que aquele cara tinha que gostar de rock. Afinal, um ruivo, de cabelos compridos e com cara (e óculos) de John Lennon não poderia dar outra coisa.

Não lembro se foi naquela noite ou alguns dias depois fui visitá-lo pela primeira vez. Nós morávamos a uma quadra de distância e pegávamos sempre o mesmo ônibus voltando do serviço. Fomos direto para o seu quarto e lá encontrei uma ruivazinha fumando um cigarro escondido da mãe. Era a Rachel, provavelmente a pessoa responsável pelo meu casamento.

Depois de ficar eufórico com tamanha coleção de discos, perguntei se o Juba me emprestaria alguns. Acabei saindo com mais de vinte discos embaixo do braço. Isso era um absurdo, pois ele não emprestava discos para ninguém. Sair com todos aqueles discos com certeza foi um sinal que nossa amizade não ficaria somente naquilo.

Minha primeira paixão musical foi o Led Zeppelin. Isso é meio natural, pois nunca vi um adolescente descobrir o rock e não gostar de Led. O Juba tinha a coleção inteira e durante praticamente um ano foi só o que escutávamos. Eu sabia todos os nomes de todas as faixas de todos os LPs (sim, naquele tempo o CD ainda engatinhava, e os discos eram de vinil).

A partir daquele dia, meu melhor amigo virou o Juliano, saíamos juntos sempre. Seja no banco, nas festas e nas viagens. Uma semana depois de estar frequentando sua casa, conheci o Marco. A melhor definição do Marco foi o próprio Juba que deu: "O amigo mais alternativo que tenho". O Marco era aquele tipo bicho-grilo. Tocava violão muito bem e conhecia altas músicas. Desde Yes, Pink Floyd e tudo quanto é pessoal alternativo. Muito da influência musical do Juba (e minha por tabela), veio do Marco. Ainda me lembro quando ele chegou com um disco novo embaixo do braço (ele sempre fazia isso); segundo ele era uma mulher nova, muito boa, que iria arrebentar por aí: Marisa Monte.

Minha coleção de discos ia aumentando. Éramos uns dos clientes mais importantes da Savarin discos, naquela época ainda na Saldanha Marinho, rua de Putas e motéis de 5a categoria no centro de Curitiba. A coleção do Led eu comprei eu 3 etapas. Uns 2 discos na primeira vez, outros 3 em outra visita e os 5 últimos de uma tacada só da última vez. Sempre tantávamos chorar uns descontos, mas o turco do Savarin era difícil.

O salário de Menor Auxiliar era bom. Ainda mais que eu morava com minha mãe e não precisava pagar nada. Mas isso também foi legal, pois desde os 15 anos eu não precisava depender de ninguém para comprar o que eu gostava e sair à noite. Mesmo assim minha mãe começou a me perguntar por que que eu estava comprando tantos discos. Afinal, não dava para comprar só um ou dois por mês? Para evitar isso comecei a esconder alguns dos discos que eu comprava. Assim eu evitava os problemas. Depois que os discos estavam no armário, junto com todos os outros era impossível saber o que era novo e o que não era.

Este mesmo tipo de problemas tinha o Juba com a sua mãe. A tia Maria Helena também regulava ele um pouco. Acabamos descobrindo um jeito muito simples de contornar isso. Quando estávamos na casa dele dizíamos que os discos eram meus; quando estávamos na minha casa, os discos eram dele.

E chegou o dia em que conhecemos o Jack Daniels. Não teria lugar melhor para isso do que o John Bull, bar de blues e rock, com o melhor da cidade. O John Bull é provavelmente o bar que mais mudou de endereço em Curitiba. Mesmo assim continua com seu jeito rocker de ser. Sempre atraindo gente que gosta de uma boa música.

O Jack Daniels é um "whiskey". Não confundir com o whisky escocês. Na sua composição entra milho, que é uma heresia para os defensores do puro malte. Ele é também conhecido como Bourbon, de gosto forte e encorpado. Comece a reparar em filmes norte-americanos. Sempre tem uma garrafa de Jack aparecendo, quadrada e com seu rótulo negro. E antes que eu me esqueça, o Jack Daniels é para se tomar no mais puro estilo cowboy, sem gelo. Mas se você é daqueles que gosta de uma cuba, experimente misturar com coca-cola. Fica muito bom!

É claro que com toda esta bagagem musical, alguém tinha que tocar algum instrumento. O Marco eu já falei que tocava violão. O Juba também tocava muito bem. Aprendeu com o Marco e eu pouco tempo já tinha diversos daqueles livrinhos estilo "Coro de Cordas". Tocava de tudo. Este "de tudo" só incluí-a boas músicas. Sertanejo estava a milhões de anos luz de nossa definição de boa música.

Com certeza a primeira pessoa que vi tocar "Wish You Were Here" foi o Juba. E nunca vou esquecer ele ou o Marco tocando "Mood For a Day" do Yes. Quem já escutou sabe do que estou falando.

Mas não era só de clássicos do rock que nossos ouvidos se deliciavam. Quando não saíamos para ir em algum barzinho, era na casa de alguém, normalmente no quarto do Juba, que cantávamos Oswaldo Montenegro, Ney Matogrosso e tantas outras. Tinha até músicas para rir, como a história de uma família alemã que tinha uma vaquinha preta. O Juba cantava e o resto da turma imitava o mugido da vaca no refrão. Era muito engraçado. E o Jack Daniels acabou fazendo parte destas noites de música, ainda mais no forte inverno de Curitiba.

Cueca na serra

Certa vez fomos acampar na Serra do Mar. A Serra é um lugar muito bonito, com mata fechada e uma ferrovia que faz a ligação entre Curitiba e Paranaguá. As pessoas que gostam de um contato maior com a natureza sempre vão para a Serra caminhar, subir as montanhas e tomar banho nas diversas cachoeiras que temos por lá.

O Conjunto Marumbi é um dos pontos da Serra do Mar mais visitados. É uma cadeia de montanhas e a mais famosa delas é o próprio Marumbi. Seu ponto culminante é o Olimpo e fica a 1543 metros ao nível do mar. A primeira pessoa que subiu o Marumbi foi o senhor Olímpio XXXX. Por isso o nome de "Olimpo".

Na Serra também encontra-se o ponto mais alto do sul do Brasil. O Pico Paraná tem 19XXm e exige uma boa caminhada para quem deseja conhecê-lo.

Naquela ocasião fomos fazer um passeio mais leve. Nosso destino era a represa ao lado da estação do Véu da Noiva. Estavam presentes o Juba, Piu, Kike e eu do nosso lado de amigos. Do "outro" lado estava a turma do Eder e Davison. Lembro do Jackson, do Garcia. Provavelmente tinha mais alguém, mas não me recordo no momento.

O Eder e o Davison conheci por intermédio do Chico. Eram (e ainda são) um pessoal muito legal. Acabaram virando nossos amigos oficiais para ir a Serra do Mar. Quando aquela coceira de ir para o mato começava, era passar a mão no telefone e chamar um dos dois. Eles estavam sempre prontos para encarar um fim de semana com caminhadas, fogueira, vinho e miojo.

Eu fiquei encarregado de comprar os mantimentos. Não lembro por que escolhi levar somente miojo. Como primeira refeição tudo bem, mas não tem quem agüente aquele macarrãozinho insosso depois da terceira vez consecutiva. Não levamos mais nada salgado. O que salvava era um garrafão de vinho, sempre presente, uns pacotes de bolacha e uma lata de leite condensado.

A primeira tarefa do dia foi armar as barracas. Escolhemos um ponto estratégico logo depois da represa à direita. Lá estávamos a poucos passos da beira do rio e podíamos avistar todos os trens que estavam passando. O trem de passageiros sempre sai uma hora antes da litorina, trem mais requintado (e caro). Ao terminarmos com as barracas tivemos a brilhante idéia. Com a ajuda da corneta trazida pelo Garcia, iríamos chamar a atenção do pessoal da litorina de uma maneira diferente. Aos primeiros apitos da litorina nos posicionamos na margem do rio. Qualquer pessoa que estivesse na litorina poderia nos ver muito bem, pois o rio naquele ponto não passada de 20 metros. Garcia tocou sua corneta e ficamos de costas para a litorina. Quando as pessoas começaram a olhar para nós na outra margem do rio baixamos as calças. Deve ter sido muito engraçado ver sete bundas brancas balançando. Acho que o pessoal gostou, pois muitos estavam rindo e acenando para nós.

Já meio entediados de não fazer nada, resolvemos tomar um banho de rio. Andamos pelos trilhos até a ponte metálica depois da estação. Uma pequena trilha lateral levava ao rio. Ele corria forte bem embaixo da ponte. Um pouca a direita uma pedra elevada proporcionava um belo lugar para se jogar no rio lá em baixo. Um a um fomos pulando no rio. Sobraram o Piu e o Juba. Todos estavam tomando banho de cuecas e foi assim que o Juba pulou também. Ao pular no rio, notamos que ele não conseguia se equilibrar direito. Não entendemos direito até que ele chegou perto de nós e disse:

- Estou perdendo minha cueca!

Todos caimos na gargalhada. E rimos mais ainda quando vimos o seu pé para fora da água com a cueca na ponta dos dedos.

Ainda ficamos um tempo na água conversando e brincando. O Piu e o Juba resolveram voltar um pouco mais cedo para o acampamento. Quando a fome começou a apertar começamos a voltar. Eu não queria comer miojo. Acabei lembrando daquela lata de leite condensado. Era o alimento ideal para aq uela hora. Chegamos e fui direto procurar a tal da lata dentro da barraca. P rocura, procura e procura. Nada de encontrar aquela maldita lata. Depois de uns quinze minutos suando dentro da barraca me dei por vencido. Eu tinha certeza que tinha trazido a lata. Só não conseguia me lembrar onde estava.

Aquela noite foi mais uma noite agradável na Serra. Alguém tinha levado o violão e nos divertimos muito cantando e inventando novas músicas. O vinho ajudou bastante. Para alguns (eu incluído) ajudou até demais. Acabei bebendo demais. No dia seguinte tinha macarrão cor-de-rosa espalhado do lado da fogueira.

Somente meses mais tarde é que a dupla Piu e Juba resolveu confessar. Ao voltarem antes do banho de rio roubaram a lata e comeram tudo sozinhos. Não falaram nada a ninguém pois viram as nossas caras de desesperados procurando a tal da lata. Imaginaram que iriam sofrer fortes "represálias" se soubéssemos que tinham comido tudo. Estava resolvido o enigma do leite condensado.

Como esta vez, inúmeras vezes passamos finais de semanas agradáveis na Serra. Seja no Marumbi, Salto dos Macacos ou Pico do Paraná, sempre voltávamos felizes e cheios de histórias para contar.

Novak

Expresso era o nome da banda composta por cinco cabeludos que tocavam de tudo. Notem que o "tudo" era rock e companhia. O lugar chamava-se Novak e ficava em frente ao bar do Alemão, no Largo da Ordem. O bar ocupava todo o segundo andar de uma construção antiga, típica como a maioria das construções do Largo. Ambiente escuro, mesas compridas de madeira e cadeiras de palha eram a decoração. Um tablado para os músicos completava o bar.

Como a maioria dos bares da nossa adolescência, o Novak servia para beber cerveja e ouvir boa música.