Minhas Cicatrizes

Depois de trinta e quatro anos de vida, vinte e sete foram as cicatrizes que encontrei espalhadas pelo meu corpo. Todas têm uma história; algumas só elas mesmas conhecem.

Tenho algumas cicatrizes que não tem muitas relações umas com as outras. Elas são variadas mas se concentram nas minhas mãos. Foram feitas em várias épocas da minha vida, desde criança até um ou dois anos atrás. São as cicatrizes do cotidiano ou de acidentes domésticos. São as cicatrizes da vida ou da morte tola.

Na casa de minha avó encontrei um interruptor de luz antigo. A curiosidade me trouxe um baita choque e uma cicatriz, no formato de uma pequena minhoca, no dedo médio da mão direita.

Ainda criança, sempre passava alguns dias de férias na casa do meu tio. Numa dessas viagens um cachorro mordeu minha mão direita, bem na junção do polegar e do indicador. Passados mais de vinte anos a cicatriz caminhou para o pulso; hoje é uma pequena marca quase apagada.

Num sábado de manhã, acordando devagar e sem despertador, fui fazer alguns sanduíches para comer na cama. Ao cortar um pedaço de queijo ganhei um talho no polegar direito e um arrepio na coluna. Peguei um esparadrapo, apertei bem e colei o pedaço de pele. Apesar da descrença geral, o remendo funcionou.

Tenho outra cicatriz no polegar da mão esquerda, feita quando eu lixava um bloco de resina. No bloco fossilizei uma bola de chicletes que cresceu durante quinze dias de férias, em setembro de 2002, numa surf trip pelo sul de Santa Catarina. Ainda faltava dois meses para o Natan nascer. A bola de chicletes também fez com que o dedo médio da mão esquerda ganhasse um corte fino e longo, fruto de uma lixadeira usada para polir a resina.

A peça de resina, com a bola de chicletes, está até hoje na sala do meu cunhado, em Florianópolis. Esta experiência o influenciou a fossilizar animais marinhos e fazer um trabalho de conclusão de matéria, para as suas aulas na faculdade de Aqüicultura.

Das gerais, sem muitas ligações entre si, começo a agrupar as minhas cicatrizes em gêneros. A primeira delas é a das bebidas.

Na adolescência e até meus vinte e poucos anos eu bebia como todo jovem normal; nem muito, nem pouco. Mas exageros só tive poucas vezes na minha vida. As cicatrizes relacionadas à bebida são de duas situações distintas, mas bêbado mesmo só foi uma vez.

Perto do calcanhar do pé direito tenho uns cortes, feitos por uma garrafa de cerveja que caiu e se espatifou, quando eu estava na praia de Santa Terezinha, no Paraná.

Ao passar no concurso do Banco do Brasil, junto com mais cinco amigos, demos uma festa para comemorar o novo emprego. Compramos muito chopp e gravamos mais de 10 fitas para ter músicas por toda a noite. Em dado momento, depois de beber bastante, resolvemos sair para fora do salão. Comecei a correr e apaguei. Caí batendo com o joelho esquerdo e com o queixo, direto no chão.

No queixo fiquei com uma marca bonita; no joelho tive o sangue coagulado fiz duas punções em menos de uma semana. Um mês depois a perna não esticava direito mas eu já estava recuperado.

Saem as bebidas e entram os hospitais. Em quatro situações os procedimentos cirúrgicos acabaram gerando cicatrizes. Nunca gostei de hospital e cheiro de éter, sempre me senti mal. Sangue, nem pensar, desmaio só de ver.

Quando morei em São Miguel do Iguaçu, no oeste do Paraná, tirei uma verruga que me incomodava desde a infância. O resultado foi uma cicatriz no cotovelo esquerdo; melhor do que uma verruga que sangrava toda vez que eu batia o cotovelo em algum lugar.

Pelos meus doze anos achei que eu estava com fimose, uma diminuição da elasticidade da pele na ponta do pênis. Falei sobre isso com a minha mãe, quando estavámos indo de carro para Foz do Iguaçu. Algum tempo depois fiz a operação e fiquei uma semana andando pelado dentro de casa. Por causa da dor, não conseguia encostar nada no pênis, nem mesmo a cueca.

A uns quatro anos atrás resolvi retirar diversas pintas que tinha pelo corpo. No consultório sentia o cheiro de carne queimada enquanto a médica cauterizava cada uma delas.

Em um final de ano, na praia, me perguntaram o que era aquela protuberência inchada, perto dojoelho. Me sugeriram consultar um médico e menos de seis meses depois estava retirando as safenas das duas pernas. Fiquei um mês de molho e ganhei 4 cicatrizes; duas nas virilhas e outras duas nos tornozelos. Depois disso sempre brinquei que nunca teria um ataque cardíaco; não tinha mais as safenas para corrigir o possível problema.

Nunca fui hospitalizado por causa dos esportes, mas já levei diversos amigos que se acidentaram enquanto nos divertíamos voando ou andando de skate. É muito ruim ver um amigo machucado, ainda mais no esporte que você gosta tanto.

E foi através dos esportes que consegui o meu maior número de cicatrizes. Nenhuma séria, nenhuma que me deixou impossibilitado de continuar a correr, voar, andar de bicicleta ou de skate. Todas lembram um pouco da minha vida nada convencional nos esportes. Nunca gostei de jogar futebol ou volei. O que eu sempre pratiquei foram pára-quedismo, mergulho, mountain bike, speedboarding, parapente, carveboard, surf, montanhismo e quase tudo que envolva adrenalina e contato com a natureza.

A minha única cicatriz feita com um carrinho de rolimã tem um formato de âncora. Na verdade, tinha, porque hoje em dia ela já se apagou bastante e perdeu aquele esplendor da infância e o orgulho para mostrar aos amigos. Como a cicatriz da mordida do cachorro, esta também migrou de lugar e resolveu subir pelo meu joelho, começando a andar em direção à virilha.

Na minha infância andei muito de bicicleta, era o meu veículo oficial. Andava todo dia e toda hora. Em uma noite um amigo passou na minha casa. Desci a garagem e o pneu dianteiro encontrou uma pedra enorme. Caí no chão e bati a boca, quebrando dois dentes da frente. Fiz uma restauração que era para durar uns quatro anos e hoje, mais de vinte anos mais tarde, ainda continuo com ela. Viva a tecnologia!

Na batata da perna direita tenho a maior cicatriz do meu corpo. Foram seis ou sete pontos que renderam uma infecção e geraram uma cicatriz feia que lembra uma minhoca amorfa. Ganhei-a numa tarde quente da minha infância quando andava com a bicicleta de um amigo meu. Um parafuso pendia da roda de trás e me cortou quando resolvi empinar a bicicleta. O pneu de trás passou por uma pedra e me desestabilizou. A bicicleta foi para o lado e a minha perna entrou no parafuso, rasgando-a. Fiquei mais de um mês indo no hospital todos os dias para curar a infecção causada pelo corte mal lavado.

No começo de 2002, logo depois de começar a surfar, dropei reto em uma onda e bati com a testa no fundo. Na hora em que voltei à superfície coloquei a mão no olho direito para ver se ele ainda estava no lugar. A cicatriz na testa é sutil, mas está lá até hoje.

Quando comecei a andar de skate speed fui treinar na pista do Parque São Lourenço. Apesar de sair da segunda curva, pegando pouca velocidade, adrenei no final da pista e caí, batendo a nádega direita. Ganhei uma ralada e uma cicatriz roxa que vai passar para a eternidade.

Em novembro de 2004 fomos para Floripa participar de um congresso internacional vegetariano. Passamos o final de semana na casa do Dudu e no sábado à tarde fomos andar de skate em uma pequena ladeira. Tentando dar um slide acabei travando o skate e me projetando para a frente. O resultado foi uma queimadura, um círculo perfeito, no cotovelo direito e um estralo constante no anelar da mão esquerda.

As queimaduras nos cotovelos são constantes no skate, mesmo quando se está usando proteção. Ganhei uma no cotovelo esquerdo quando andava de speed.

No joelho direito tenho diversas marcas, grandes e espalhadas; umas escuras, roxas; outras claras quase brancas. Todas feitas quando andava de skate longboard. Resolvi parar quando os acidentes ficaram maiores que o tesão pelo esporte; estava cansado de levar amigos para o hospital.

Na palma da mão direita tenho um risco cruzando as linhas da vida e do amor. Foi andando de carve, na rua da minha casa, enquanto mostrava o brinquedo para o Zé Adelar, companheiro de brinquedo e de surf.

Praticar esportes é uma das coisas que dá sentido a minha vida. Quando estou surfando, correndo, andando de bicicleta ou voando sinto-me mais perto da energia que une todas as pessoas. Apesar de algumas serem feias, minhas cicatrizes de esportes são como troféus de guerra; até tenho orgulho delas e lembro com carinho de cada situação.

Mas existem também aquelas cicatrizes que não são lembradas, que aconteceram em momentos esquecidos.

A mão direita trás cortes no polegar, uma cicatriz fina no anelar e outra no dedo mínimo. Restam ainda várias outras, verdadeiros traços anônimos, todos marcando a pele muito mais que minhas lembranças.

Os nós dos dedos das mãos trazem diversas cicatrizes; umas são como pequenas larvas, outras, riscos, grossos ou finos, contando uma história para ninguém.

Não tenho cicatrizes preferidas ou preteridas. Todas fazem parte da minha vida. Algumas aconteceram em momentos felizes, de comemoração, outras ganhei na adrenalina, na atenção ou no descuido. Todas marcam o meu corpo, não cobram, não discutem. Não importa se estou feliz ou triste, elas sempre me seguem, não questionam, não incentivam.

Minhas cicatrizes somente observam.

FIM

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